segunda-feira, 25 de Agosto de 2008

Paraaaaaabéns!!!!!!!!

A Inês faz anos hoje. 6 anos. Apesar da festa, dos amiguinhos, da família, dos presentes, da música e tudo e tudo e tudo, aqui fica um presente diferente: uma história.


O sonho da nuvem dourada

Na escola há o barulho da sala de aula, dos rapazes a jogar futebol, das meninas a jogar à corda e à macaca ou a dizer segredos. E sim, para mim um segredo é barulho. Não gosto de barulho nem de segredos.
Em casa o barulho contínua. A primeira coisa que os meus papás fazem quando chegam é ligar a televisão. E põem-na alta. Deve ser para não se sentirem sozinhos. Se bem que sozinhos não estão… afinal têm-se um ou outro e eu também estou em casa. Não os consigo perceber muito bem...
Estou no quarto. Estou no meu mundo. Estou mais longe do barulho que vem da sala, da cozinha e dos telemóveis. Gosto de olhar pela janela do meu quarto e ver o céu. É que o céu tem sempre alguma coisa bonita – e nova – para me mostrar. Ora está limpo, azul e com sol, ora com uma ou outra nuvem branca, ora com muitas nuvens – mais cinzentas e um bocado tristes -, ora está com muitas – muitas, muitas, muitas, muitas, muitas, mas mesmo muitas – estrelas. E quando o arco-íris aparece? Só me apetece sorrir.
Às vezes…de tanto olhar para ele - para o céu - distraio-me. Principalmente quando está com nuvens e o vento anda a dançar com elas. Acho graça. Acho bonito. E de tanto olhar, tanto olhar…de quando em vez, nem ouço o toque da campainha que indica que o intervalo das aulas acabou. Mas não há problema, há sempre um amiguinho que me chama e a professora nunca ralhou comigo por causa disso.
Ainda assim, quando estou em casa e olho para ele da janela do meu quarto é diferente. O céu é como se fosse assim uma espécie de meu melhor amigo. Enquanto o barulho acontece fora do meu mundo – e como eu não gosto de barulho – converso com ele. Principalmente sobre aquilo que me põe triste. É certo que não me responde, mas eu fico menos triste quando falo com ele. E de tanto conversar, tanto conversar… às vezes estou distraída e não ouço o papá e a mamã a chamarem por mim para ir jantar. Quando me apercebo eles estão a fazer barulho à porta do quarto. Eu peço desculpa e lá vou para a mesa.
Durante o jantar – e enquanto a televisão faz barulho e a mamã insiste para que eu coma tudo, principalmente os legumes, e eles conversam de coisas sérias (como costumam dizer) – penso sobre se o meu pai e a minha mãe também gostam do céu, do sol, das nuvens, das estrelas e do arco-íris. E se também falam com ele. Nesta altura decido que, um dia, vou perguntar-lhes.
Antes de adormecer um deles conta-me uma história. Confesso que gosto mais quando decidem improvisar. Há histórias escritas que não gosto muito e por isso insisto que eles pensem e contem uma da cabeça deles. Às vezes não estão com muita paciência, mas eu torno a insistir porque enquanto pensam não fazem barulho. Antes pelo contrário, ficam mais sorridentes e menos sérios. E eu gosto deles assim.
Nesta noite, o papá contou uma história sobre um menino da minha idade que tinha andado à chuva com os amiguinhos e que depois ficou constipado. Eu percebi aquilo que ele me estava a dizer e encontrava-me a ouvi-lo com atenção. Mas entretanto comecei a pensar: se a chuva vem do céu, se o céu é muito bonito, amigo e divertido por que é que põe as pessoas doentes?
Acordei a sorrir. Quando a mamã foi chamar por mim o sol entrou muito contente pelo meu quarto a dentro. Até parecia que sabia que, de certa forma, tinha sonhado com ele. E ainda mais contente fiquei quando cheguei à escola e a professora disse que tínhamos que escrever uma redacção. O tema era livre, ou seja, podia escrever sobre aquilo que quisesse. Decidi escrever sobre o meu sonho:
«O Céu é um dos meus melhores amigos. Mas confesso que fiquei um pouco triste com ele quando soube que há meninos e meninas que ficam doentes quando apanham chuva. E se a chuva vem do Céu, e se ele é um dos meus melhores amigos, decidi perguntar-lhe por que é que ele faz isso com as meninas e com os meninos. Mas enquanto estava a conversar com ele sobre o assunto, aconteceu-me uma coisa muito surpreendente mas muito bonita. Haviam algumas – poucas – nuvens no Céu e o Sol apareceu muito bonito, grande e quentinho por de entre elas. Juntaram-se e transformaram-se numa bonita e grande nuvem dourada. O vento começou a dançar com essa nuvem – nunca tinha visto uma nuvem assim – e trouxe-a para cima da minha cabeça. Quando chegou mesmo em cima de mim começou a deitar umas gotas douradas. No fundo era uma chuva. Mas era uma chuva diferente. Não era fria, não molhava nem punha ninguém doente. Quando me apercebi, à minha volta estava a minha professora e os meus amiguinhos da escola e os meus papás. Estavam todos, tal como eu, a apanhar aquela chuva diferente. Ali eu percebi que aquele era um banho especial. Porque a partir daquele momento, todos passaram a fazer menos barulho, a ter menos segredos e a olhar mais para o Céu, para o Sol, para as nuvens, para as estrelas e para o arco-íris. Eu fiquei muito contente e agradeci ao meu melhor amigo».
A professora gostou muito da minha redacção. Pediu que a lê-se, na aula, em voz alta e escreveu um recado para eu levar para casa e que aconselhava os meus papás a lerem o que tinha escrito. Depois de ter lido em voz em alta o meu sonho, quer para os meus amiguinhos, como para os meus pais, algo de surpreendente aconteceu. E não foi um sonho. Aconteceu mesmo na vida real. Eles começaram a fazer menos barulho, a dizer menos segredos e começamos a olhar, em conjunto, mais para o céu, para o sol, para as nuvens, para as estrelas e para o arco-íris. Por falar nisso…sabiam que a mamã e o papá não viam o arco-íris há muitos, muito, anos?

Fim
Marta Araújo

Donna Maria - Estou além

Uma versão absolutamente brilhante. Quer-me parecer que António Variações não fica nem um bocadinho chateado com este refresh no seu tema.

Foi graças a 'um louco feliz' envolto em Popelinem Seda e Ganga , que conheci este 'Além'. Afinal os senhores da rádio têm de servir para alguma coisa, né? LOL

terça-feira, 19 de Agosto de 2008

No teu poema


No teu poema

Existe um verso em branco e sem medida

Um corpo que respira, um céu aberto

Janela debruçada para a vida.


No teu poema

Existe a dor calada lá no fundo

O passo da coragem em casa escura

E aberta, uma varanda para o Mundo.

Existe a noite

O riso e a voz refeita à luz do dia

A festa da Senhora da Agonia

E o cansaço do corpo que adormece em cama fria.

Existe um rio

A sina de quem nasce fraco ou forte

O risco, a raiva, a luta de quem cai ou que resiste

Que vence ou adormece antes da morte.


No teu poema

Existe o grito e o eco da metralha

A dor que sei de cor mas não recito

E os sonos inquietos de quem falha.


No teu poema

Existe um cantochão alentejano

A rua e o pregão de uma varina

E um barco assoprado a todo o pano.

Existe a noite

O canto em vozes juntas, vozes certas

Canção de uma só letra e um só destino a embarcar

O cais da nova nau das descobertas.

Existe um rio

A sina de quem nasce fraco, ou forte

O risco, a raiva e a luta de quem cai ou que resiste

Que vence ou adormece antes da morte.


No teu poema

Existe a esperança acesa atrás do muro

Existe tudo mais que ainda me escapa

E um verso em branco à espera... do futuro.


José Luís Tinoco


Para ouvir e ver:

quinta-feira, 14 de Agosto de 2008

Do zero

Vamos começar tudo de novo, pode ser?